“Nada faz sentido em biologia se não for à luz da evolução” – Dobzhansky  

   A capacidade de adaptação em resposta às alterações ambientais que os organismos vivos apresentam, modulando sua atividade metabólica e biossintética, depende de um sistema sensível às propriedades do meio em que estes desenvolveram sua história evolutiva. A sinalização celular, essencialmente química, coevoluiu, em certos grupos de organismos, com estruturas de nível crescente de complexidade que permitem detectar, por exemplo, partículas de radiação. Conservada pela evolução, é de extrema importância e complexa mesmo em seres unicelulares ou naqueles ditos “inferiores”. É indiscutível a relevância de um sistema de comunicação que promova a total integração entre as células que compõem um indivíduo, o que permite transpor uma evidente barreira à manutenção de qualquer tipo de vida. 
   Por outro lado, estar apto a “sentir” seu meio, e explorá-lo da melhor maneira possível (frente às limitações sempre presentes) depende inteiramente do desenvolvimento de estruturas que permitam captar as moléculas nele presente, as quais são responsáveis por direcionar uma resposta fisiológica em particular. Como explicar, portanto, o surgimento de estruturas tão complexas e elaboradas como as inúmeras e variadas proteínas responsáveis pelo processo em discussão, tendo estas, por aparente coincidência, as propriedades específicas e adequadas às necessidades dos organismos de forma geral? É importante lembrar que a vida em nosso planeta esteve sujeita à um processo evolutivo que ainda atua nos dias de hoje, o qual, acredita-se, selecionou a partir de um potencial intrínseco aos seres vivos, provido por mutações gênicas, por exemplo, as estruturas que observamos atualmente; tendo o referido potencial surgido ao acaso, podemos também afirmar que, à luz dessa teoria, a manutenção de uma determinada característica em um ser vivo não se dá pela mesma via, sendo perpetuada, segundo alguns, pela mesma força oportunista (no sentido de circunstancial) que pode extingui-la, a seleção natural. Podemos também questionar a real capacidade que os organismos vivos têm de perceber seu meio. A realidade, para cada ser vivo, é subjetiva e limitada pelo conjunto de estruturas (sejam receptores nas membranas plasmáticas das bactérias ou sistemas visuais complexos dos mamíferos) que neles foram selecionadas para este fim, bem como pela organização do aparato de sinalização celular que, apresentando vias de integração ou moléculas diferentes, produz efeitos igualmente distintos, que se refletem em uma percepção particular do meio-ambiente. Em nosso caso, podemos dizer que há bem mais do que somos capazes de enxergar (?).
   A despeito de sua origem, a multicelularidade, implica uma complexidade crescente em um sistema celular, seja pela diversificação das funções de determinados grupos de células (linhagens desempenhando papéis cada vez mais específicos) ou pela necessidade de responder de maneira coordenada às necessidades de um organismo. O vídeo abaixo discute a origem dos organismos multicelulares, e, junto à leitura proposta ao fim desse post, apresenta um bom resumo sobre o que tem sido desenvolvido nesse ramo da biologia.


  
   Vale lembrar que o desenvolvimento de um aparato de sinalização celular complexo e robusto, obviamente, não seria suficiente para a evolução das formas de vida complexas que habitam o planeta ou que nos são apresentadas nos registros fósseis; não sendo este, no entanto, o propósito do processo evolutivo, visto que neste não há, tendo em vista a teoria evolutiva mais amplamente aceita, uma tendência ao progresso. A importância das moléculas de adesão, as quais garantem a união das células que compõem um ser multicelular, permitiram o processo de compartimentalização observado nessas formas de vida, ou seja, o surgimento de sítios, em seu interior, isolados do meio-ambiente, tendo composição química distinta e regulada pelos próprios organismos – esta propriedade foi fundamental para que se atingisse um maior nível de organização, tal como observado nos grupos de animais atuais. Nestes compartimentos puderam evoluir linhagens de células com um potencial funcional cada vez mais específico, estando esta propriedade diretamente associada ao aparato de sinalização presente nessas células. A funcionalidade específica de uma linhagem celular está necessariamente associada aos sinais químicos a que foi submetida em seu processo de maturação e ao seu conteúdo (químico) citoplasmático naquele momento, os quais modulam, graças a intermediários exclusivos em suas cascatas de sinalização intracelular, efeitos específicos, ou seja, a expressão de moléculas com funções específicas, tais como proteínas. Estas, por sua vez, restringem a capacidade de resposta desta linhagem de células a um grupo particular de sinais químicos. Vale destacar que o mesmo grupo de sinais químicos pode produzir efeitos diversos em linhagens celulares diferentes, tendo em vista sua maquinaria celular distinta, o que promove o processamento do sinal de uma maneira particular. Isto explica como linhagens celulares diferem morfofuncionalmente, visto que o processamento de um sinal específico pode produzir, em última instância uma modulação na expressão gênica, o que quer dizer que duas linhagens distintas não expressam as mesmas moléculas.
Com essa noção superficial sobre o assunto podemos afirmar a grande relevância da sinalização celular em toda a árvore da vida, extendendo sua compreensão além dos processos endócrinos com os quais estamos habituados, e percebendo que somos produto dos mesmos processos e leis naturais que regem as outras formas de vida do planeta.

Links recomendados :

http://en.wikipedia.org/wiki/Multicellular_organism
http://www.dls.ym.edu.tw/lesson/YM-12-25.pdf
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/12382328
http://arxiv.org/abs/nlin/0009008

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